Randonnée

“Randonnée” é uma modalidade do ciclismo não competitiva, de autossuficiência e de longa distância, que vem atraindo inúmeros amadores à estrada. Seu segredo é bastante simples: um desafio sem pódio. É a vitória do reconhecimento de um trabalho árduo sobre a estrada e não sobre outros seres humanos. Não existem equipes, nem premiações em dinheiro. É somente você contra a distância e todas intempéries da natureza. “Autossuficiência”, que citei na definição, rima com amor próprio. Embora não sejamos totalmente solitários no randonnée, o maior desafio se dá no ponto mais íntimo da nossa alma. Nos faz ser fortes de dentro para fora. É colocar a mente em xeque inúmeras vezes, é desistir de desistir, para descobrir no final que o grande prêmio é sentir uma paz que nos invade nos dias que se seguem. Por isso várias amizades se forjam na estrada, nos comovemos com a inquietude e superação humana, descobrimos o melhor e o pior dentro de um tubo de ensaio que é uma prova dessas. Quando mudamos o foco das adversidades para o que realmente importa, encontramos um caminho para melhorarmos como seres plenos e felizes, que nos muda para a vida toda. Em toda magia que a natureza, a estrada e uma boa pedalada podem proporcionar, a vaidade como se conhece perde um pouco o sentido, pois com uma bicicleta velha e pesada muitas vezes se consegue maior reconhecimento entre os participantes do que aqueles que usam equipamento de ponta. Torna o desafio pessoal ainda mais difícil aos olhos de quem vê. Para um randonneur experiente, vencer uma distância é uma questão de ritmo e de percepção sobre si mesmo. “Autoconhecimento” é uma tarefa que nunca tem fim: o corpo muda, a mente evolui e os problemas na estrada podem se apresentar de várias maneiras. Mesmo que se repita um trajeto pedalado, as condições serão sempre diferentes. Lembro-me claramente dos primeiros grandes randonneurs que conheci e das inúmeras vezes que parei para ouvir suas histórias fantásticas, pensando em quanto aquilo estava distante da minha realidade. Pouco a pouco descobri que cada série de brevets é um novo ciclo, em que busquei diminuir a quilometragem em que havia me colocado, erroneamente, atrás desses grandes ciclistas. A única distancia que realmente importa é a que falta para o próximo PC, uma vez que sendo amigos estaremos sempre perto uns dos outros. Queremos nos incluir definitivamente no grupo dos vencedores, aqueles que conseguiram encarnar a garra e a teimosia, mas mantendo o espírito jovem. Quanto a isso, vejo, com um encantamento sem fim, inúmeros ciclistas de idade mais avançada sendo ovacionados pelos mais novos por manterem performances incríveis em brevets. Será isso fruto de força bruta? Ou poderíamos dizer que experiência rima com controle emocional? Num mundo que pauta a perfeição muitas vezes pelas novidades, o velho e o antigo vem nos ensinar que a vida se recicla, mas sem perder a essência. Levo para a vida pessoal, assim como compartilho com a minha família, cada pequena descoberta que fiz na estrada. O esporte, em especial para mim o ciclismo, fez mais pelo meu espirito que qualquer livro de autoajuda. É a vida em sintonia com o corpo, mente e principalmente com o coração. Nós dos Les Gauchos Randonneurs desejamos a todos que encontrem essa sensação maravilhosa dentro de si, fazendo com que qualquer problema do cotidiano se torne pequeno diante da determinação de um randonneur, e que possamos inspirar nossos filhos e amigos a buscarem o seu próprio caminho através da felicidade.

Um grande abraço a todos e nos vemos na estrada!

%d blogueiros gostam disto: